quinta-feira, 30 de julho de 2009
Quero
de amigos,
leite ninho com nescau,
de uma coberta bem quente,
de uma roda
de música e poesias,
de bricadeiras de universitários.
Advinho o filme
nas mímicas dos amigos ausentes
quero o calor das fogueiras
que fazíamos à beira do rio
e as noites que discutíamos
literatura, teatro, cinema.
Os casais abraçados,
e os amigos também protegidos
porque ali desperdiçávamos amor.
tudo compreendido,
não precisava explicar
claro como a noite
de lua cheia e o som do violão.
As vozes formavam o coral
da família amizade,
na cumplicidade dos desejos
de nossas idades.
Que paz era esta?
domingo, 12 de julho de 2009
sono
deixa de minhocar
ideias minhas
e de mais nenhum
do mundo minhocando.
Jung ou Freud
intrusos dos sonhos
alheios.
o sono profundo
que nem sonhos produzem
saberia Jung analisar?
ou talvez Freud.
nem um nem outro...
não foram abertas as portas do porão
nem sonhos, nem dia
nem claro, nem escuro
mistura de noite
e madrugada
a vida passa correndo
debaixo das cobertas
desperta!
domingo, 21 de junho de 2009
O que aconteceu?
Faz muito tempo.
Não escrevo mais.
Te deixei de lado.
Deixei várias coisas,
algumas num passado distante
outras, recente.
Cresci.
Não me angustio mais.
Só estava com saudades.
Saudades de sentimentos,
neste tempo de nada
sentir.
Não sei.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
papoteclado
no teclado
parece febre, parece peste.
Hão de corrigir as palavras mal concordadas
mas acordadas, alertas
e não acordadas em
pensamentos, em alma, em vida...
não se faz acordo em assunto de alma
seguem as teclas...
insanas, impertinentes, afobando
e afogando .
liberta "o ar que respiro"
esse papo teclado ou essa tecla papada,
(esse papo nosso
tá pra lá de Marrakech,já tá pra lá de Teerã...)
nem rã, nem cobras, nem lagartos,
nem todos os espíritos, nem todos os feitiços
este papo teclado
ou esta tecla papada ?
(nem todos os santos,
irão explicar...)
esse papo ... já está
de manhã...
terça-feira, 7 de abril de 2009
"Minha Linda"
Em que ruas, que desertos se escondeu?
Por que mares já navegas Minha Linda...
Onde foi que a nossa história se perdeu?
Ah! Quase morro de esperar
Ah! Fico louco sem saber
Se tens tua vida em outras mãos,
porque não me liga pra dizer?
Nossa casa é feito um rio de solidão
Ora a água, ora a margem, rezo eu
Pra que os anjos que te cuidam,
cuidem bem
já que não posso cuidar
eu sendo eu!
Ah! Quase morro de esperar
Ah! Fico louco sem saber
Se tens tua vida em outras mãos,
porque não me liga pra dizer?
( letra e música de João Miguel Valencise )
site postado ao lado .Link www.valencise.com.br/musica- confiram!
dor
espantar a dor?
com qual remédio?
não aquela dor física.
aquela que ameaça
a alma e não lhe dá chances
de gritar por socorro.
sufoca nas entranhas o grito
cala a boca, emudece os lábios.
o que é isso?
Pessoa , o poeta fingi-dor,
finge que é dor
a dor que deveras sente.
e eu nem poeta, nem "fingidora",
fico com a minha dor
escancarada
na cara,
na raça.
vira minha
a dor da minha filha.
nela, propriamente dor
em mim
me invalida,
me descredencia,
me encurta a vida.
terça-feira, 24 de março de 2009
Cony
hoje, 24 de março de 2009
para mim, dia de reflexão. Escolhi um texto do Cony para deixa-lo no meu blog: "O suor e a lágrima" :
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante. O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.