Faz muito tempo.
Não escrevo mais.
Te deixei de lado.
Deixei várias coisas,
algumas num passado distante
outras, recente.
Cresci.
Não me angustio mais.
Só estava com saudades.
Saudades de sentimentos,
neste tempo de nada
sentir.
Não sei.
Faz muito tempo.
Não escrevo mais.
Te deixei de lado.
Deixei várias coisas,
algumas num passado distante
outras, recente.
Cresci.
Não me angustio mais.
Só estava com saudades.
Saudades de sentimentos,
neste tempo de nada
sentir.
Não sei.
(esse papo nosso
tá pra lá de Marrakech,espantar a dor?
com qual remédio?
não aquela dor física.
aquela que ameaça
a alma e não lhe dá chances
de gritar por socorro.
sufoca nas entranhas o grito
cala a boca, emudece os lábios.
o que é isso?
Pessoa , o poeta fingi-dor,
finge que é dor
a dor que deveras sente.
e eu nem poeta, nem "fingidora",
fico com a minha dor
escancarada
na cara,
na raça.
vira minha
a dor da minha filha.
nela, propriamente dor
em mim
me invalida,
me descredencia,
me encurta a vida.
hoje, 24 de março de 2009
para mim, dia de reflexão. Escolhi um texto do Cony para deixa-lo no meu blog: "O suor e a lágrima" :
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante. O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.